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terça-feira, 28 de junho de 2011

DISCIPLINA A BORDO

O Jornal Movimento, ao lado do Opinião e Pasquim, foi um importante órgão contra a ditadura militar. O jornalista Raimundo Pereira era o editor e contava com a participação de Fernando Henrique Cardoso e Chico Buarque de Holanda. Sua primeira edição foi em Julho de 1975 e a última em novembro de 1981. Diversos fatores nebulosos rodeiam o fim do jornal, mas a versão oficial é a de que problemas financeiros obrigaram a fechar as portas.

A matéria abaixo publicada no jornal Movimento falava sobre a censura imposta à primeira versão de Roque Santeiro e os desdobramentos do caso.

Regina Duarte e Francisco Cuoco:
Selva de Pedra
Parece que o recente episódio Roque Santeiro deixou algumas lições para muita gente. Graças à publicidade prévia que a novela tivera antes de sua suspensão, o fato criou um debate em torno de um dos redutos mais sagrados do lar brasileiro - a televisão - que certamente não pode ser considerado "cômodo". O desgaste que Roque Santeiro deixou no ar não será desfeito com muita facilidade, por mais novelas que entrem no horário. Para outros conflitantes, como a Globo, ficou a tarefa também nada cômoda de repor os milhares (dentre os tantos que fatura) de cruzeiros investidos na produção - embora o reempacotamento de Selva de Pedra (Janete Clair, 1972) sem pagar um tostão aos artistas já tenha dado uma pequena ajuda neste sentido.

Para evitar capítulos desagradáveis como esse, o Ministério da Justiça prepara-se para baixar portaria no setor exigindo que: 

1) o texto das novelas lhe seja submetido na íntegra, e não parceladamente como vem sendo até agora para a liberação; 
2) a gravação dos capítulos em videotape também vá na integra, quer dizer, do primeiro ao último, antes da liberação; 
3) só haja propaganda da telenovela depois de tudo - texto e gravações - liberado. 

Na guerra pelo horário nobre da família brasileira, a produção de uma telenovela é coisa complicada. Em geral o autor prepara um roteiro básico, escreve algumas dezenas de capítulos que são gravados (e liberados) e depois, de acordo com as estatísticas, vai encompridando esta passagem, cortando aquela, aumentando a participação de tal personagem, podando as asas daquele outro, abrindo ou diminuindo o leque de temas tratados conforme os acontecimentos que se sucedem no dia a dia da população. 

Armando Falcão:
ministro da Justiça em 1975
Se o sistema serve para espichar os glamorosos e lacrimejantes melodramas em torno dos quais têm-se centrado as preocupações da telenovela brasileira, por outro concede-lhe a possibilidade de uma invejável maleabilidade e reflexo da vida social do país (é verdade que nem sempre usada a fundo por seus autores) A reação foi imediata: Jorge Andrade, autor de Os Ossos do Barão, já declarou que considera impossível escrever - por exemplo -120 capítulos de uma só vez. O produtor Moacir Derinquém também expôs seu ponto de vista (ver a revista Amiga , nº 286): com os riscos de custo envolvidos, as telenovelas diminuirão seu tamanho para 40 capítulos. Pode-se acrescentar também às preocupações pelo tamanho, a preocupação pela qualidade; a medida do Ministério da Justiça bate o prego no exato momento em que autores e temas mais críticos vinham conseguindo reservar para si uma parcela significativa da produção no setor. Trata-se de uma questão "comercial": aumentando-se o risco financeiro num lado do setor, diminui em outro; as produtoras ficarão menos propensas a aceitar e suportar o que considerarem como "ousadias" da parte de seus empregados.

A lista de temas proibidos pelo Ministério da Justiça, que acompanha a minuta da portaria, de resto, deixa uma série de dúvidas no ar. Embora seu item mais retumbante seja o a), é difícil supor que ele venha ter alguma ressonância significativa junto às já tradicionalmente pacatas (desse ponto de vista) novelas de televisão. Nos outros itens é que estará o nó das questões - e das prováveis discussões que se levantarão em torno do assunto, particularmente nos itens e) e i). Definir o que seja um padrão moral ou consagrado" no país nunca foi tarefa muito fácil. Muito menos a de caracterizar o que "agrava" uma tensão social. Aqui a margem de manobra será grande - e não, evidentemente, da parte das produtoras. Quanto aos outros itens, conseguirão evitar que os personagens jamais passem do segundo uísque ou da primeira pinga - conforme o caso - e que qualquer enredo mais picante do que, por exemplo,o de A Moreninha, do escritor romântico Joaquim Manuel de Macedo, já seja considerado em empreendimento "arriscado" do ponto de vista empresarial.

As proibições - Da minuta da portaria do Ministério da Justiça sobre a nova regulamentação do processo de censura das telenovelas:

"Não serão liberadas as telenovelas quando a mensagem ou temática configurar:

a)   Propaganda de subversão da ordem, apresentando cenas de terrorismo ou guerrilha, ou ainda, de revolta com características técnicas de guerra revolucionária, com descrição de ações político-subversivas ou de resistência a medidas de preservação da ordem;
b)   preconceitos de religião, de raça ou de classe;
c)    exteriorização contrária à moral e aos bons costumes;
d)   desrespeito à lei, à autoridade pública, à disciplina escolar e á harmonia conjugal e familiar;
e)   exploração ou agravamento de antagonismo ou tensões sociais;
f)     manifestações de uso de entorpecentes ou drogas afins, bem como o uso imoderado de bebidas alcoólicas;
g)    cenas capazes de provocar reações de pânico ou horror, caracterizadas ou não por forte suspense;
h)   exploração do sexo ou vício, violência ou exacerbação de erotismo;
i)     motivação que possa perturbar, confundir ou abalar padrões morais ou consagrados no país".

Por Flávio Aguiar
Jornal Movimento
3/11/1975

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A TELENOVELA É A ÚLTIMA TRINCHEIRA

Produzido entre 1973 e 1975, com periodicidade mensal, o jornal EX- foi um dos expoentes da chamada mídia alternativa durante a ditadura militar, reconhecido por suas reportagens aprofundadas, textos ácidos e imagens provocativas. Para dar a exata dimensão da ousadia criativa e oposicionista do EX-, a capa da primeira edição trazia Hitler, nu, tomando sol em uma praia tropical. No expediente, o alerta de que a distribuição era própria, com a expressão “garantida” entre parênteses. E o aviso “Nenhum Direito Reservado”. Já a manchete e a matéria de capa do 16º acabaram sepultando o jornal, tornando-se a última edição distribuída sob o nome EX-. “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós – a morte do jornalista Vladimir Herzog”, que revelava o assassinato de Herzog pelos militares, em outubro de 1975, e vendeu 50 mil exemplares. 

Foi para o Jornal Ex- que o dramaturgo Dias Gomes, que teve sua novela censurada em 1975, deu este depoimento:

O povo é meu parceiro. Um parceiro invisível, milhões de olhos, de ouvidos, braços, que colaboram comigo durante a feitura de uma novela. Vocês pesquisam, fazem perguntas a ele; eu tenho ele do meu lado, participando. Então, eu tenho a possibilidade de ter uma percepção um pouco diferente do que o povo é, do que o povo sente, do que o povo deseja, através de um laboratório que é a telenovela, que todo dia eu abro e vejo no ar.
Uma das coisas fascinantes da telenovela é poder fazer uma experiência diária. Você tem um laboratório aberto todas as noites, no qual você faz a experiência, e logo você tem a reação e pode aproveitar esse resultado, ainda no decorrer da própria novela. A reação é um troço novo, que se manifesta de uma maneira inteiramente nova.

Você cria determinadas personagens que passam a viver. O povo as trata como seres vivos. Eu ignoro o Ibope. Eu acho que um dado completo é a reação popular. O que não quer dizer que você tenha obrigação de agradar ao popular. Por exemplo, no início da minha segunda novela eu achei que o público de tv se chocava muito com minha formação brechtiana: não tinha distanciamento suficiente para criticar. Então se eu me propunha a fazer crítica da realidade brasileira eu não tinha platéia sensível, era uma platéia muito envolvida pela magia.

Renata Sorrah, a protagonista que morre
no início de "Assim na Terra como no Céu"
Então quando fiz Assim na Terra Como no Céu, eu invocava o tipo de vida de Ipanema. E eu necessitava de uma platéia crítica: eu ia colocar criticamente um estilo de vida. Então imaginei o seguinte: uma heroína, vinda da Zona Norte, chegava em Ipanema e, quando estava prestes a se destruir encontra um padre, por ele se apaixona e volta a ser uma criatura dessas capazes de apaixonar qualquer espectador. Ela quer se libertar da barra pesada de Ipanema, casar - e aí a matam. A platéia passou a criticar a novela, "como é que o senhor mata uma moça pura, poderia até ser minha irmã, e conserva esse banqueiro porco, que vai casar com uma mocinha?" O pessoal passou a agredir a novela sem saber que, na verdade, estava assimilando aquilo que eu queria passar. Era uma prova de que eu estava enxergando as coisas. Eu tento levar o público a uma saudável tomada de consciência.

Eu acho o povo brasileiro um povo altamente desesperançado. Que procura algo em que se agarrar, nem que seja um mito, e encontrar saída para os seus problemas. Ele reage à colocação de seus problemas de uma maneira muito calorosa, muito emocional, mas reage também de uma maneira um tanto pessimista.

Tenho procurado abordar na tv uma temática brasileira, colocando os problemas do nosso povo, da nossa realidade, o tanto quanto a censura e a profundidade da televisão me permitem. E tem sido esse o meu trabalho há 6 anos. Não me arrependo absolutamente, acho que tem sido uma experiência altamente gratificante para mim.

A proposta de Roque Santeiro era justamente esta: encontrar uma maneira de contar autenticamente brasileira. Eu achava que geralmente a disposição das cenas na telenovela era plasmada na influência do cinema americano. Os atores também, na solução de suas cenas quase sempre adotavam padrões. Os diretores do mesmo modo partiam de grandes filmes. Então eu propunha uma lavagem cerebral em mim e no texto, pra começo de conversa, e depois na direção; e que os atores também procurassem um comportamento autenticamente brasileiro.

Por exemplo, quando houvesse uma briga, que não fosse uma briga como no cinema americano. Brasileiro geralmente não briga de soco. Geralmente, quando se vai fazer uma cena de luta, a maneira que o sul-americano consagrou é a americana: o boxe.

Brasileiro briga com pontapé, rolando no chão, metendo o dedo no olho; é uma briga livre, a nossa. O nosso idioma também tem o seu som, é muito onomatopaico, principalmente no Nordeste. E não se transmite porque os atores estão muito preocupados com determinados padrões de postura, de inflexão de voz.

Tudo isso consistia em encontrar uma linguagem que não fosse calcada no cinema, que fosse alguma coisa que partisse da nossa maneira de pensar; a gente mesmo não sabia onde ia dar, mas que fosse um ponto de partida. Daí eu ter buscado os cantores populares, os mitos populares para ser o background de Roque Santeiro. É uma história popular cantada de maneira como a cantaria um cantador nordestino. É difícil de explicar; é uma coisa que a gente tem de transmitir para elaborar. E aí você sentir a reação popular de calor ou de frieza.

Usando a realidade brasileira, não posso menosprezar qualquer elemento. Agora você me pergunta: "Por que tem sempre padre na tua realidade?" Porque sempre tem padre na sua vida, em qualquer parte que você vá tem sempre. O padre é a figura da História do Brasil, desde a Primeira Missa, que foi rezada por eles. O padre numa cidade do interior é uma figura importante. São elementos de determinada realidade que eu procuro analisar.

Não procuro soluções; não compete ao teatro apresentar soluções. A função do teatro é conscientizar, mais nada. Do teatro não sai revolução, nem da televisão. O máximo que podemos pretender é levar ao povo a consciência de seus problemas. Mas quais são esses problemas, nós não vamos botar na tv. É um dado histórico.

Eu fui pra televisão por motivos praticamente econômicos. Estava impossível continuar fazendo teatro. O teatro sofreu a partir de 64 um estrangulamento cultural, econômico e político. Eu teria que optar; fazer um teatrinho dito político, abandonar a minha linha de pesquisa; ou então procurar outro meio de vida. O teatro é considerado não sei por que como uma fonte de subversão, capaz de abalar os pilares do regime. É ridículo! Ridículo que nosso teatro de elite seja considerado subversivo. Embora a minha geração de dramaturgos tenha apontado na década de 50 uma bandeira de teatro popular e político, na verdade o nosso teatro nunca chegou a ser político, quanto mais popular. Um teatro popular no palco; e na platéia a elite!

Dessa contradição palco-platéia nasceu a minha frustração e o fim total de qualquer propósito. Para que nossas propostas pudessem caminhar, seria preciso que o governo se interessasse e tivesse a cultura como uma de suas metas. Mas nós jamais tivemos um governo desse tipo.

Às vezes, os políticos nos tratam bem. Somos os homens que manipulam a opinião pública. Mas atitudes concretas absolutamente nenhuma. Se não há em relação a artes mais elitistas como teatro, literatura, cinema, não deveria haver evidentemente com uma forma de arte popular. Nunca a cultura foi meta do governo. O único homem que falou de cultura neste país era louco: Jânio Quadros.

Então, era inviável a minha profissão de dramaturgo. Daí eu ter ido para a televisão. Estava no meu campo de trabalho, encarei assim. E já que tinha de fazer televisão, decidi suar a camisa, como faço no futebol de praia. Foi essa a minha atitude inicial. Eu sou obrigado a escrever 20 laudas por dia. O trabalho é 95% braçal. Quando termino uma novela pareço um trapo, pois passei 7, 8 meses escrevendo 20 laudas por dia, impedido de ir a teatro, cinema, ver amigos - é realmente desumano. Mas não tem jeito, não depende da direção da Globo, porque telenovela é um gênero que inventamos e que só pode ser feito dessa maneira.


Nessa profissão suicida que é escrever telenovela (a censura é pior que os incidentes da produção; o autor torna-se um alvo de tensões, tanto é que Jorge Andrade escreveu uma novela só; e Lauro César Muniz, que escreveu Escalada, do meio pro fim teve que escrever com um médico na cabeceira, eu descobri a televisão com todos os preconceitos que levam para ela, numa atitude, reacionária que os intelectuais tinham e alguns ainda têm. Tenho um amigo artista plástico, que diz:

- Nunca tive um aparelho de tv, nem nunca terei, jamais deixarei entrar na minha casa.

Um ótimo sujeito, grande amigo, mas com uma posição altamente elitista. Eu sinto nos intelectuais anti-tv uma atitude ultrapassada; intelectuais com atitudes - classificados de burros. Era moda dizer que se era contra a televisão, no Brasil. Os verdadeiros intelectuais já entenderam; só persistem os subintelectuais. Ignorar a tv hoje é não poder interpretar o sistema. Há toda uma geração que está aí se desenvolvendo, essencialmente formada pela televisão. A minha atitude diante da televisão é de seriedade. A mesma com que eu fazia teatro. E descobri, de repente, que tinha nas mãos um poderoso meio de expressão e que todos os preconceitos contra ela eram idiotas.

Mas diante da tv eu tenho que me exercitar, porque descobri, que ela é a forma de expressão do nosso tempo. A televisão nivela tudo. E terrível e violenta, enquanto está sendo visto, e extremamente precária depois que passa. Como é o nosso tempo. Nós vemos ídolos serem feitos da noite ara o dia. Aquilo que nos tempos antigos era um processo de um século, hoje é feito em 2 ou 3 anos. Hoje há um tremendo esforço, para se conseguir muito pouco -se você considerar o fator tempo, a duração da mensagem (não o fator impacto, que é o maior que qualquer arte jamais pode pretender).

E a gente sempre tem medo de pronunciar a palavra arte. Essa é uma atitude de espanto diante de uma coisa nova. Ainda há uma atitude de espanto diante da televisão! Como houve espanto em relação ao cinema. Até os anos 20, ninguém chamava o cinema de arte! Nem Lumière pôde prever que o cinema seria chamado de arte. E todos esses preconceitos que existiram contra o cinema, existem hoje com a televisão.

Ela é tudo do nosso tempo. Ao mesmo tempo uma coisa poderosa, que atinge milhões em determinado momento - uma associação assim de poder e fraqueza ao mesmo tempo. Você pode assistir um combate em algum país, ver pessoas morrendo naquele mesmo momento diante de você. Você tem este poder divino de ser onipresente através da sua pequena janela, a tv. E ao mesmo tempo você é terrivelmente impotente porque não pode fazer nada por aquele pais. Esta sensação de potência e impotência é própria de nosso tempo. O mundo pode ser destruído num apertar de botão.

Quer dizer, nós adquirimos o poder dos deuses e a fraqueza imensa da criatura humana. Não poder fazer nada, diante do sistema.

A telenovela, eu acho que foi a única coisa que a televisão brasileira inventou -o resto é cópia do rádio e da televisão importada. Esta característica da telenovela, de arte que está acontecendo e que até mesmo ignora o que vai acontecer, todos os fatores, a censura, a morte de um ator, uma atriz que engravida - esta característica criou uma fórmula nova de expressão; de todas, a mais aberta: é talvez a única arte realmente aberta que existe. Na medida em que você executa recebendo a colaboração de uma platéia imensa, recebendo colaborações dos próprios artistas, realizando uma arte que não aconteceu, mas está acontecendo - porque ela acontece dia a dia, e nesse dia a dia a reação do público influi nos acontecimentos, na vida cotidiana, na solução. Porque ela entra dentro da sua casa, se intromete na sua vida, quase que violenta a sua própria vontade, te obriga a ver. É gratuita, mas também não pede licença.

A telenovela vem da Argentina, Cuba, México, que são os países que inventaram a novela radiofônica. O que existe no Brasil é uma coisa completamente diferente. A telenovela transformou-se, desligou-se quase de suas origens - não todas as telenovelas. As da Globo têm estas características. A influência do cinema americano e europeu, do romance moderno, e histórias mais complexas com um aprofundamento maior de personagens, enredos e subenredos. Então é esse produto que já foge às características lineares. É uma outra coisa, que está muito mais aparentada ao cinema e ao romance moderno que às suas origens.

Por que acontece isso? Acho que fundamentalmente pela falência do teatro como arte de massas, embora tenhamos levantado aquela bandeira do teatro popular; e o cinema transformou-se num cinema hermético, numa total incomunicação.

Acho muito cedo fazer um balanço da influência da tv sobre outros tipos de arte. Também é uma característica do nosso tempo: exigir as coisas num espaço de tempo muito pequeno. Pois já se pergunta sobre o fim das telenovelas! O que é uma coisa altamente ridícula. O teatro, que tem mais de 2 mil anos; e perguntar sobre o fim do teatro eu já acho uma coisa idiota. Então, uma coisa que começou ontem, onde ainda estamos engatinhando, procurando a linguagem, e há os idiotas que escrevem para jornal: "Há sintomas de que a novela vai terminar." Esses caras que ficam querendo analisar uma novela por padrões literários, é uma atitude inteiramente furada. Em 1º lugar eles precisam encontrar novos padrões estéticos.

A novela resolve o problema de toda a faixa de horário diário. Quando você faz um programa, você resolve o problema de um dia da semana. A novela resolve uma faixa inteira, você ganha uma sustentação do público; em termos de estratégia está certo. E a novela brasileira está sendo exportada. Irmãos Coragem foi lançada no México não como novela: foi lançada como uma série americana, diária, às 9 h da noite, numa emissora que estavam 5º lugar de audiência. E o que aconteceu? A emissora passou para o 1° lugar naquele horário. Foi uma revolução.

Causa muita estranheza aos americanos, que seus enlatados não consigam entrar no horário nobre da programação brasileira. Li unia vez um artigo que analisava o que havia no mundo todo, e o articulista constatava que no mundo todo a programação era parecida, toda importada da América. Estranhamente, no Brasil, havia às 8 h um seriado brasileiro; às 9, um programa de humorismo brasileiro, às 10, Bandeira 2 (de Dias Gomes - NR). Em todos os outros países, a não ser onde as televisões são estatais, os horários nobres exibem a programação americana.

A telenovela foi a única trincheira que nós conseguimos, a única barricada que conseguimos levantar, contra a invasão dos enfadados amerianos. Então, quando os pseudo-intelectuais atacam a telenovela, torcem pelo fim da telenovela, estão sendo profundamente antibrasileiros, antipopulares, antiintelectuais. É realmente a única trincheira. Não houvesse a telenovela, e os horários das 6 às 10 estariam importando para nós uma cultura que não é a nossa, deformando a cultura brasileira. E nós estaríamos também mandando royalties para fora. Estamos criando campo de trabalho, de experimentação brasileira.

A Globo começou a industrialização da tv brasileira, que exige dos empregados, evidentemente, o máximo - como toda indústria. Ela é uma empresa altamente capitalista. As pessoas que manuseiam os aparelhos, os tapes da Rede Globo, são técnicos feitos há pouco tempo. São jovens, feitos aqui no Brasil, que erram, que têm know-how precário e evidentemente quando há erros, devem expedir seus memorandos.Se eu tenho de escrever 20 laudas por dia, o ator também tem de decorar as 20 laudas. E o diretor tem que gravar estas 20 laudas. Então, a desumanidade no meu trabalho existe em relação ao diretor, em relação aos técnicos. Agora, isso é porque a gente inventou um troço como a telenovela, a gente inventou uma coisa que tem o seu lado fascinante, o fascinante de ser novo; mas tem o negativo de exigir um tipo de trabalho que realmente não está de acordo com o trabalho intelectual a que estamos habituados. Mas não tem saída. A saída destrói o meio.

A crise da censura? Não pode ser analisada isoladamente. Este fato atinge teatro, cinema, muitas peças foram proibidas. A crise, realmente, não é da telenovela. A crise é da cultura brasileira.

Jornal Ex-
Setembro de 1975
(Depoimento a João Antônio, Hamilton Almeida Filho e Paulo Patarra).

segunda-feira, 13 de junho de 2011

CENSURA DIZ QUE PROIBIU A NOVELA EM DEFESA DA MORAL, ORDEM PÚBLICA E DA IGREJA


Brasília - A presença, dentre outros pontos negativos, de matéria contendo "ofensa à moral, à ordem e aos bons costumes bem como achincalhe à Igreja", foi o motivo principal da proibição, pela Divisão de Censura, da novela Roque Santeiro, cuja estréia a Rede Globo de Televisão havia marcado para o último dia 26.

Os motivos foram apontados ontem em nota divulgada pela Direção-Geral do Departamento de Polícia Federal, com a finalidade de esclarecer a opinião pública sobre o assunto, amplamente abordado por aquela emissora que, a 16 de maio último, foi advertida sobre a impossibilidade de ser examinada a peça através de uma sinopse.

A NOTA

"Com referência à nota ontem divulgada pela Rede Globo de Televisão, a propósito da novela Roque Santeiro, de autoria de Dias Gomes, a Divisão de Censura de Diversões Públicas do Departamento de Polícia Federal esclarece o seguinte, em resumo:

1 - Em data de 16 de maio, a Divisão de Censura comunicou à Rede Globo, que, como a sinopse da novela não oferecia condições para um exame em profundidade, era necessária a apresentação dos textos em grupos de 24 a 38 capítulos, antes de realizada a gravação dos mesmos, para que, com o exame antecipado, pudesse a Censura manifestar-se seguramente, no que dissesse respeito à classificação etária, a ser depois confirmada com a verificação das gravações.

2-Em data de 4 de julho, a Censura comunicou à Rede Globo que os textos dos capítulos de números um a 20 haviam sido aprovados para apresentação após as 20h, condicionados, no entanto, à verificação das gravações, para obtenção do certificado liberatório; permanecia a exigência da remessa antecipada dos capítulos subseqüentes, posto que, ocorrendo maiores implicações de ordem moral ou social, poderiam ser vetados os outros capítulos ou mudado o horário da novela.

3 - Em data de 20 de agosto, a Censura comunicou à Rede Globo que o exame das gravações permitiu uma melhor avaliação da novela, levando-a a reconhecer que havia aspectos intoleráveis para a faixa das 20h, donde decidir-se classificá-la para maiores de 16 anos, liberando-a para após as 22h, sujeita ainda a novela a vários cortes com o fim de suprimir cenas e situações inconvenientes.

Acrescente-se que o parecer dos censores que examinaram a novela assinala, dentre outros pontos negativos, que a mesma contém: "ofensa à moral, à ordem pública e aos bons costumes, bem como achincalhe à Igreja."

Acentue-se, finalmente, que, nos contatos pessoais havidos entre a Censura e elementos credenciados da direção da Rede Globo de Televisão, em Brasília, desde o início do exame do problema, inúmeras advertências e apelos foram formulados, com o propósito de evitar a exibição da novela Roque Santeiro, sobretudo no horário das 20h".



CANTÍDIO EXPLICA

O Delegado Cantídio Sampaio, como líder da Arena. esclareceu ontem a posição da Censura relativamente à novela Roque Santeiro. Afirmou que a proibição se restringiu a horário, estabelecendo-se que poderia ir ao ar às 22h, em vista das inconveniências do seu enredo.
Adiantou que os responsáveis pela transmissão da novela não podem alegar terem sido surpreendidos pois foram avisados das restrições da Censura, por escrito, em maio, em julho e ultimamente a 20 de agosto, além de terem recebido apelos de ordem pessoal relativamente ao conflito entre a propaganda que se fazia e as objeções oficiais.

CARTA

Um grupo de 23 artistas de teatro, cinema e TV tentou ontem entregar uma carta ao Presidente Ernesto Geisel, na qual exprime a apreensão da classe diante dos obstáculos que vêm enfrentando para exercer a profissão. Eles não passaram nas ante-salas, onde foram recebidos pelo Sr Alberto Costa, subchefe especial do Gabinete Civil.

Após alguns minutos de ligeira confusão, o ator Paulo Gracindo leu em voz alta, a carta dirigida ao Presidente que, entre outras coisas, afirma que "o país vive uma triste contradição: enquanto a sociedade se moderniza, a cultura, por efeito de um código de censura anacrônico e implacável, se avilta, se desfigura, e se desnacionaliza".


Jornal do Brasil
29/8/1975

segunda-feira, 30 de maio de 2011

DIAS GOMES MOSTRA UM MITO: ROQUE


O mito com os prós e contras de sua existência, as superstições de um povo e o grande número de lendas criadas em torno deste fenômeno social foram reunidos por Dias Gomes em Roque Santeiro. Dias, há muito vinha preocupado com esse problema, e esperava apenas "a oportunidade de levá-lo ao ar em forma de crônica de uma cidade do interior". E esta oportunidade chegou com novas responsabilidades para o autor, que escreve pela primeira vez para as vinte horas e, novamente, estréia a cor em mais um horário da Globo.
Sobre o horário, Dias não acredita que "existam padrões de conveniências estabelecidos pela emissora. Existem, sim, determinações que a levam a seguir determinado comportamento que, erradamente, a meu ver, muitos chamam de filosofia de horário. A mim, foi pedido que escrevesse uma novela na linha das produções anteriores sem me preocupar com qualquer outra circunstância. Assim, iniciei Roque Santeiro, na qual não admitirei nenhuma repressão. Pelo contrário. Já cheguei a sugerir que, em caso de haver necessidade de alterar o roteiro de Roque, a medida mais indicada será retirar a novela do ar".

Sobre a história, Dias pretende "apenas colocar em discussão a vantagem ou não de se cultivar o carisma de um mito fabricado por um ato de indiscutível bravura". Como em todas as novelas suas, não haverá graduação entre os personagens. "Todos serão dimensionados de acordo com sua importância para o conjunto, tanto que, as tramas paralelas, de modo geral, convergirão para o centro de interesse da história. A novela se desenvolve em dois períodos. O passado, com todo um levantamento da vida de Roque Santeiro, e o presente, quase conjugado com o futuro, pois mostrará todo o processo decorrente e conseqüente da exploração econômica e social de Roque."

Dezessete anos antes do desenrolar da história, Roque Santeiro, jovem artesão, é trucidado barbaramente por um grupo de cangaceiros que invadiu a cidade imaginária de Asa Branca, no norte da Bahia, próximo a Pernambuco, a fim de saqueá-la. A população, desesperada, não hesitou em se render às exigências dos cabras. Apenas Roque resistiu o quanto pôde, só parando quando foi dominado e estraçalhado. Por isso, Roque virou lenda, mito e padrinho de muitos em Asa Branca. Atraído pela fama do mito, chega a Asa Branca um grupo de artistas do Rio para filmar A Incrível História de Roque Santeiro e de Sua Fogosa Viúva, a Que Era Sem Nunca Ter Sido. Assim, com referência ao passado do herói, a novela se situa por volta de 1973, com Asa Branca enriquecida depois de toda a especulação em torno de seu mito. Há o Zé das Medalhas, por exemplo, que prosperou graças às medalhas e demais efígies que passou a produzir utilizando a imagem de Roque Santeiro. E o Sinhozinho Malta, antigo coronel de Asa Branca, que enriqueceu como pecuarista, explorando o comércio de carnes e tantos outros.

Roque Santeiro é uma composição sobre o interior brasileiro e a malograda aventura de um escultor popular. É a pureza do homem do campo aliada à sagacidade e natural inventiva de nosso camponês. É, ainda, um estudo sobre a psicologia individual e grupal desta constante da presença de um líder, digamos, espiritual. Uma ficção até certo ponto, tratada de maneira fantástica em que, acima de tudo, importa marcar a nítida influência do fenômeno sociológico que é o mito." Para elaborar a sinopse e os primeiros capítulos da novela, Dias Gomes, além de observações pessoais semelhantes às que fez em Fátima, Portugal, quando de sua última viagem à Europa em companhia de sua mulher, Janete Clair, pesquisou sobre artesanato, cunhagem de medalhas, frisadoras, tornos, indústrias domésticas e indústrias de vulto, como a da carne e todo o seu complexo (frigoríficos, circulação, exportação). Para a montagem dos cenários exteriores de Asa Branca será utilizada toda a infra-estrutura já existente em Barra de Guaratiba, onde está sendo gravada Gabriela. Assim, serão duas cidades inteiramente preparadas pela Rede Globo, que pretende mais tarde criar em Guaratiba uma nova sede de estúdios de novelas. As gravações de Roque Santeiro, que substitui Escalada dia 25 de agosto, começam no próximo dia 30.

DENIS CARVALHO É A NOVIDADE DO GRANDE ELENCO

Como toda novela em fase de produção, o elenco de Roque Santeiro foi alterado diversas vezes. Primeiro, as dúvidas foram sobre quem viveria Matilde. Foram cogitadas Teresa Raquel, Norma Bengell e Marlene antes de Rosamaria Murtinho.

Depois, foram sobre o personagem que faria o Roque no filme sobre sua vida. Depois da negativa de Paulo José, pensaram em Jece Valadão, Reginaldo Farias e Mílton Morais, Agora, será Dênis Carvalho, que acaba de assinar contrato com a Globo. Estão confirmados, por enquanto, Francisco Cuoco, Lima Duarte, Bete Faria, Mílton Gonçalves, Emiliano Queirós, Elisângela, Lutero Luís, Luís Armando Queirós, André Valli, Sandra Barsotti, Catulo de Paula, Lady Francisco, Teresinha Amayo e Eva Todor, entre outros.

Por Arnaldo Risemberg
Revista Amiga TV Tudo
2/7/1975

terça-feira, 24 de maio de 2011

ROQUE JÁ E UM SUCESSO PARA O ELENCO - A EXPECTATIVA DE ROQUE SANTEIRO, A NOVELA QUE FOI SEM NUNCA TER SIDO

Matéria publicada em 1975 comentava a ansiedade do elenco para a novela que estrearia em três meses, mas que nunca foi de fato ao ar: A Fabulosa Estória de Roque Santeiro e de sua Fogosa Viúva, a que era sem nunca ter sido.


Roque Santeiro, de Dias Gomes, marcada para substituir Escalada dia 25 de agosto, primeira novela a cores das 20 horas está provocando no elenco um entusiasmo poucas vezes notado no início dos trabalhos de outras novelas. As gravações começaram na semana passada, sob a direção de Daniel Filho, e alguns atores - tanto os que estão estreando na Globo como os veteranos - se mostravam até nervosos, como se estivessem interpretando seu primeiro papel.

Elza Gomes, por exemplo, não parecia ter mais de 30 anos de carreira quando foi fazer o teste de fixação de seu personagem. "Eu estou muito nervosa. Nunca em televisão fiz um papel tão sério. Em rádio, sim. Fui muitas vezes a mulher má. Agora me destacaram para o papel de uma mulher circunspecta e misteriosa."

A história de Dias Gomes gira em torno da figura mítica do herói Roque Santeiro (Francisco Cuoco). A novela passa-se numa cidade fictícia, mas da época atual (Asa Branca, localizada no Nordeste), onde o ambiente é de muita simplicidade. A igrejinha, a casa do prefeito, o cabaré fixam bem o clima reinante no lugar. A cidade inteira vive da lembrança de seu herói. De uma forma ou de outra, todos estão ligados a Roque Santeiro. Alguns cultuam a sua memória, outros atribuem-lhe milagres, mas existem os que o odeiam.

Do elenco de Roque, alguns já trabalharam em novelas de Dias Gomes, como Francisco Cuoco, Lima Duarte e Bete Faria. Outros estão estreando na Globo (Dênis Carvalho, Sandra Barsoti, Eva Todor, Leina Krespi e Valdir Meia). Conscientes da força que Dias imprime a seus personagens, todos estão se preparando com muito cuidado.

Dênis Carvalho vai interpretar um ator que vive o papel de Roque no cinema. Muito contente por estrear na Globo - "e ainda mais numa novela de Dias Gornes" -, ele está tranqüilo, procurando entrosar-se com tudo e com todos.

Sandra Barsoti
Outra estreante empolga é Sandra Barsoti, que também vai interpretar uma atriz que trabalha no filme sobre Roque. "Entrei para -brigar. Está é meu primeiro papel numa novela da Globo, mas estou sendo bastante orientada por Daniel Filho. É uma boa chance e quero aproveitá-la."

Lutero Luís, que foi o Professor Tadeu em Escalada, aparece em Roque Santeiro como o Prefeito Seu Flor. "Minha aspiração na outra novela foi realizada agora: consegui chegar ao posto de prefeito da cidade, graças à ajuda de minha mulher, D. Pombinha."

Eva Todor
como D. Pombinha
Dona Pombinha é Eva Todor, atriz consagrada no teatro, mas que está se exigindo demais, pois também está estreando na Globo. "Tenho que estar mais atenta que os outros, porque em teatro estou acostumada a improvisar. Mas o Daniel Filho está sendo sensacional comigo."

Lady Francisco, eleita Rainha da Equipe Técnica da novela, está curtindo seu novo título e o papel expansivo que interpretará. Ela será Rosali, formando com Leina Krespi (Ninon) a dupla de cantoras de um cabaré dirigido por Rosamaria Murtinho (Matilde).

Teresa Amaio, que está voltando à Globo depois de longo tempo afastada, será Mocinha, filha de Lutero Luís e Eva Todor. Lima Duarte viverá um vaidoso homem de mil perucas (Sinhozinho Malta). Bete Faria, como viúva de Roque, terá sobre si toda atenção da cidade.

Milton Gonçalves será o intransigente Padre Honório. E a estreante Cidinha Millan vai viver João Ligeiro, uma menina criada como cangaceiro e que de repente aparece grávida.

Por Daisy Prétola
Revista Amiga TV
1/5/1975