terça-feira, 4 de outubro de 2011

ALÉM DE ASA BRANCA - O HOMEM BRASILEIRO NA PELE DE SINHOZINHO


Não há quem resista ao charme meio desajeitado de Sinhozinho Malta. Quando ele sacode o braço, chacoalhando a pulseira e o relógio ao som da cascavel, todos riem. Imitam o bordão pelas ruas. Sinhozinho Malta é o mais bem-acabado personagem de Ariclenes Venâncio Martins, o Lima Duarte. Mineiro, 55 anos, ele consegue destacar-se no elenco impecável de Roque Santeiro, novela que arrebanha fantásticos índices de audiência Brasil afora. Entusiasmado com "o homem brasileiro" embutido no personagem, Lima Duarte fala de seu trabalho.

- Como se explica o sucesso retumbante da novela Roque Santeiro?
- Acho que o público estava cansado de cenas em que o mocinho bebe uísque matutando sobre o homossexualismo, discutindo as dores da alma. Fico pensando no operário, num torneiro mecânico do ABC, por exemplo, que passa oito horas em cima de uma máquina e, ao ligar a televisão de sua casa, vê um mundo que na cabeça dele só pode existir na Suécia. Dinamarca ou Noruega. Esse operário, tenho certeza, gostaria de se ver no vídeo. Está aí um dos truques de Roque Santeiro: coloca-o em cena, bem canhestro, o brasileiro típico. Além disso, a história da novela trata de um tema poderoso, mexendo com o mito, com milagres que não existem. Asa Branca vive em torno de um milagre que não aconteceu, de uma viúva que não é, essas coisas de Brasil.

Mas o grande público faz essa leitura da história?
Talvez não. É provável que, conscientemente, o grande público não perceba as coincidências históricas. De qualquer forma, Roque Santeiro passa a idéia da grande mutreta nacional, o público intui com a maior clareza. E, hoje, se regozija em ver a novela vetada pelo senhor Armando Falcão em nome da Velha República. Gosta da história liberada pela Nova República.

Na sua opinião, por que Roque Santeiro foi proibida?
E eu lá sei? Mas desconfio que na Censura não existiam pessoas capazes de conhecer Brecht e sacar todo o conteúdo da frase "infeliz o povo que precisa de heróis".



A novela prova que o Brasil começa a ser interessante?
As novelas andavam abordando apenas os problemas de uma classe média urbana. Hoje, Roque Santeiro brinca com o Brasil, com os problemas nacionais. É bom lembrar que a farsa de Dias Gomes e Aguinaldo Silva só pode deslanchar com a liberdade dos últimos tempos. Antes, os autores tinham limites, não podiam sequer fotografar a realidade brasileira.

As novelas são um produto brasileiro de olho no mercado externo. Você acha que vai despertar o interesse do público estrangeiro?
Claro, bem mais que as outras. Eles não querem ver uma imitação barata do que eles são. O Brasil é bizarro e interessa a todos. Acho apenas que a venda da novela no exterior deve ser bem feita, explicando que país é este que se alimenta de milagres, em todos os níveis.

Luiz Gustavo em
Beto Rockfeller
Você dirigiu Beto Rockfeller, novela que revolucionou a dramaturgia televisiva da época. Depois disso você dizia que só dava Beto. Roque quebra essa tendência?
Roque Santeiro é um outro filão. Antes de Beto Rockfeller, a novela brasileira vivia a fase do folhetim com histórias pairando acima da realidade. Beto Rockfeller teve a importância de fazer a dramaturgia aterrissar, colocar o pé no chão. Por muito tempo, no entanto, Beto ficou no vídeo, travesti-do nos mais diferentes personagens. Só quem conseguiu escapar dessa fórmula foi Dias Gomes, com O Bem Amado. Inaugurou o realismo crítico que, agora, está escancarado em Roque Santeiro. Mas enveredar pelo realismo critico não é uma tarefa simples, exige um imenso conhecimento da realidade.

Você costumava dizer que a novela brasileira estava numa encruzilhada, fugindo do cotidiano brasileiro e se aproximando do charme rico do Casal 20. Roque Santeiro abre novos caminhos?
A novela parecia aquelas mulheres bonitas de folhinha de borracheiro, um sonho distante, inatingível. Foram criadas fórmulas plásticas de escapismos, não reportavam nossa gente e nosso tempo. Quando olhava para a tela, via tudo pasteurizado: o iogurte se apaixonava pela manteiga que era filha do queijo. Acho que Roque Santeiro abre caminho para o resgate da formação brasileira, pode-se falar das pessoas que fazem - ou fizeram -este país. Estamos no tempo de resgatar o orgulho nacional, já não precisamos ter vergonhada da bandeira verde e amarela e do nosso hino.

A novela interrompe o tal "naturalismo" na televisão, voltando ao estilo interpretativo. Isso é bom?
Muito bom. O estilo naturalista era meio cúmplice da malandragem, os atores não se davam ao trabalho de interpretar, procurar construir o personagem. Interpretar é muito gostoso. Regina Duarte, por exemplo, mudou muito, está explodindo nessa novela. A riqueza com que interpreta seu personagem fez com que ela se despisse da "namoradinha do Brasil" e passasse a "amante brasileira". Está fantástica. Gosto do realismo crítico porque ele exige mais do que apenas decorar páginas e andar no caminho traçado pelo diretor. A gente tem que ir buscar todo o conhecimento da arte e da vida. É preciso reativar a memória emotiva. Uma vez perguntei a Ziembinsky, que era polonês, como fazia para representar tão bem em outra língua. Ele me abriu os olhos, dizendo que o difícil não era decorar o texto em português, mas captar a emoção brasileira.

Como você se transforma, na televisão, no intérprete do homem do interior?
Eu sou do interior. Na elite dos atores brasileiros sou o único de formação rural e isso ajuda muito na composição do personagem. Sou o produto de uma rara estrutura familiar: meu pai trabalhava no campo e minha mãe no circo. Essa proximidade do picadeiro despertou a vontade de ser ator e, quando surgiu a televisão no Brasil, participei das primeiras imagens, representando um aluno caipira.

Lima como Zeca Diabo
em "O Bem Amado"
Zeca Diabo e Sinhozinho Malta têm características muito parecidas. Assim como seu grande sucesso no cinema, o personagem sargento Getúlio. Por conta disso, alguns críticos dizem que Lima Duarte é ator de um único papel...
Para esses críticos, tenho a piada pronta: somos eu e o Chaplin. Eu e o John Wayne. Eu e o Henry Fonda. Essa acusação é a prova de que somos uma colônia cultural, não tenho o direito de representar o homem brasileiro. John Wayne ganhou uma estátua, eu levo espetões. Fiz, na Globo, três grandes personagens: Zeca Diabo, Salviano Lisboa e, agora, Sinhozinho Malta. Na minha cabeça é como se fosse a trilogia do homem brasileiro. Quando recebi o papel de Sinhozinho Malta, pensei: "Pega o Zeca, enche com dinheiro do Salviano e burila."

O Sinhozinho Malta de hoje é o mesmo da primeira versão da novela?
Não tem nada a ver, só na periferia. Os grandes embustes, os escândalos "transamazônicos" só fiquei sabendo agora. E, evidentemente, isso deu outro colorido ao personagem. E preciso existir uma boa idéia por trás do personagem senão a criação se perde no ar. Imaginei o Sinhozinho Malta como um feliz herdeiro do caso da mandioca, corrupto e corruptor. Aquele sujeito que enriqueceu e fica macaqueando Hollywood, sonha ser um Robert Redford e tem como ídolo o J. R. de Dallas.

Aquele tilintar de pulseira e relógio foi você quem inventou?
Fui eu, com um fundamento psicológico. Quando Sinhozinho Malta está contrariado, mostra os ouros, o poder. Essa idéia é ajudada pelo som da cascavel. Sei que o público adora esse trejeito do personagem e o imita por aí. E a tal história, bordão só dá certo quando está bem fundamentado. Já estou diminuindo o "tô certo ou tô errado", porque é um pouco forçado.

Mesmo premiado no teatro e aplaudido no cinema, a televisão parece ser o veículo sob medida para sua arte. Concorda?
Minha sensibilidade funciona afinadíssima na televisão. Conheço tão bem a televisão que posso abstrair tudo que acontece no estúdio e chegar direto ao espectador. Sei como trabalham os diretores, os iluminadores, os câmeras. Domino o veículo. Sou capaz de fazer a expressão que quero apenas com a parte do rosto que está sendo enquadrado pela câmera. Mas acho o teatro da maior importância. Não faço tão bem por deformação profissional. É na televisão que consigo o melhor desempenho do papel de ator.

E qual é, na sua opinião, o papel do ator?
Representar seu povo. Quando alguém diz que sou bom ator, está me dando a melhor credencial para representá-lo. O político também representa o povo, mas credencia-se através do voto, corruptível. Assim, a representatividade do ator é mais legítima. Que os políticos fiquem com o poder. Eu prefiro o delírio.


Tá certo ou tá errado?


Por Miriam Lage
11/8/1985
Jornal do Brasil

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